Campinas/SP - Quarta, 17 de outubro de 2018 Agência de Notícias e Editora Comunicativa Ltda.  
 
 
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Campinas-SP

 

JORNALISTA DECIDE REPUBLICAR HISTÓRIAS DE UM REPÓRTER (1)  


Desde 2008 a Comunicativa passou a atuar no mercado de comunicação com características próprias de Agência de Notícias e Editora. Como Agência ela se propõe a levantar informações de interesse jornalístico, na macro região de Campinas, espontaneamente ou por demanda para difundí-las através do site www.clicknoticia.com.br. Como Editora ela coloca à disposição de instituições públicas ou privadas o seu corpo de profissionais para produção de publicações jornalísticas nas mídias hoje disponíveis. Ao conhecer a empresa e suas necessidades no setor de comunicação, podem ser sugeridas novas ferramentas através da elaboração de um Plano de Comunicação, incluindo jornal para os funcionários, publicações institucionais ou específicas para os clientes, abastecimento de sites, entre outras. Esse trabalho é pautado pelos critérios técnicos e a ética das notícias e suas conseqüências. A Comunicativa foi criada como prestadora de serviços jornalísticos em abril de 1996 em função da demanda de profissionais capacitados para interrelacionar o segmento corporativo e os veículos de comunicação jornalística. Fones: (19) 3256 4863 / 3256 9059


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Foto publicada na capa da edição


DOS DOCUMENTOS À FICHA
DE EMPREGO, UMA AVENTURA

Repórter cobrador da CCTC? Em princípio´pareceu mesmo inviável. Primeiramente porque era subestimar demais o departamento pessoal da empresa. Os funcionários perceberiam de imediato a trama. Além do mais a carteira profissional exigida não poderia ser a do repórter é evidente. O jeito foi pensar em conseguir toda documentação necessária para a admissão. A primeira etapa da ideia foi posta entao em andamento. O repórter saiu em busca da documentação.

TER DUAS OU TRES CARTEIRAS PROFISSIONAIS É MUITO FÁCIL

Como era necessário uma nova carteira profissional, era, consequentemente, imprescindível obtê-la. Não foi tão difícil como parecia. No dia 31 de outubro o repórter rumou para a DRT Campinas, situada próxima ao Viaduto Miguel Vicente Cury. Antes mesmo de chegar ao salão onde três ou quatro funcionários expedem o documento, passando pela esquina da Rua Dr. Saraiva foi abordado por alguns elementos. "Vai tirar foto xará? Faço na hora e carteira de saúde também". Não deu ouvidos e seguiu colocando-se na fila que sempre antecede a plaquinha sustentada por um suporte branco onde se lê: "Faça fila aqui". Como havia apenas umas três pessoas a sua frente não demorou a ser chamado ao balcão de atendimento.

"Certificado de reservista?" pediu o funcionário. Depois então perguntou: "E a primeira vez que tira carteira?". Mal respondida a pergunta ele já preenchia o o espaço reservado aos dados pessoais do interessado. Nome: Gilberto Gonçalves; Local de nascimento: Santos/SP; Data de nascimento: 04/01/1951; Filiação: Antonio Gonçalves e Florinda de Souza Gonçalves; Estado civil: solteiro; Ele deixou em branco os espaços Doc. No.; Fls; Liv; Registro Civil; Outros Docs; e depois continuou. Situação militar: Certificado Militar No. 437905; Órgão; 2a. RM - Estado de S. Paulo; Data da emissão: 31/10/79. Depois colocou sua matrícula ou outro qualquer; 8346 e assinou.

Enquanto escrevia automaticamente comentou sobre a cidade de origem do repórter: "Quer dizer que você então é de Santos? Que terrinha boa hein. Como é, vai pra lá neste feriado (Finados)?" Pegou o rolinho de tinta e passou no dedo do repórter. Ofereceu a ficha de arquivo e a carteira para serem autenticadas com a impressão digital e disse; "Pronto. Pode limpar a mão na estopa que esta naquela mesa. Instantes depois o repórter saia dali com sua carteira profissional No. 89525 - Serie 00013 - SP, emitida pela Secretaria de emprego e Salário e não mais pelo Departamento Nacional de Mao de Obra - Divisão de Identificação e Registro Profissional que emitiu sua anterior No. 38958 - Serie 273 de 08/03/1971.

CARTEIRA DE SAÚDE. DE SAÚDE?

Foi o tempo em que uma Carteira de Saúde podia realmente receber este nome. Hoje ela não passa de uma simples abreugrafia tirada por técnicos nem sempre capazes e cujos impressos ficam aos montes numa gaveta, já assinados pelo medico responsável, prontos prqa serem entregues. A maioria dos que se dedicam a este ramo, quase sempre denominado Instituto Abreugráfico, cobra normalmente 100 cruzeiros por uma "Carteira de Saúde", mas, curiosamente, o escritório do despachante "Ged", situado em frente à garagem da CCTC, que trabalha em conjunto como departamento pessoal, cobra apenas 50 cruzeiros.

O repórter rodou a cidade em busca de uma carteira tirada na hora. Num dos Institutos, se não fosse a presença de ´caçadores´ de fregueses que ficam na esquina, o responsável pelo serviço teria fornecido uma abreugrafia de outra pessoa "que não voltou para buscar". Primeiro ele disse que só fazia pelo dobro do preço, depois pensou bem diante de tantos ´caçadores´ e remendou: "Olha moço eu não vou poder quebrar seu galho hoje, mesmo tendo possibilidades pois os impressos já estão assinados e eu tenho muitas abreugrafias que não vieram buscar mas acontece que..." Seu olhar disse tudo, 2000 cruzeiros seria muito pouco para dividir com tanta gente. "Mas se você for no IMA garanto que vc consegue". O repórter foi. Lá por pouco não convence a funcionária que trabalha sozinha durante todo o dia. A chegada de duas pessoas acabou atrapalhando tudo. Mesmo assim o repórter saiu como documento assinado. Ficou faltando só a abreugrafia. O problema foi resolvido, no entanto, utilizando a carteira já existente na empresa onde trabalha.

DEPOIS DOS DOCUMENTOS, AS FILAS...

Realmente não foi difícil colocar a documentação em ordem. . A Carteira Profissional em" branco saiu com muita facilidade da DRT-Campinas. A de Saúde custou, pelo menos em dinheiro, um pouco mais: 100 cruzeiros. Todos os outros documentos - Carteira de Identidade, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e o Cartão de Identificação do Contribuinte (CIC) - estavam em ordem a. em poder do repórter. Restava apenas se apresentar na empresa e tentar preencher a ficha de solicitação de emprego, esperando que nenhum funcionário desse pela coisa.
Seguindo a orientação fornecida através de um telefonema por um funcionário da CCTC, o repórter se apresentou, munido de todos os documentos, na portaria da firma, na Vila Costa e Silva, no dia primeiro de novembro. A camisa esporte, aberta no peito, de seu costume, foi trocada por uma mais modesta e fechada até o pescoço. A calça "US-TOP", de barra virada, deu lugar a outra, mais antiga, de "Tergal", boca meio larga e bolsos laterais e traseiros com botões. Nos pés, um "Kichute", sem meia. Como quem busca uma colocação para servir de salvação, com a barba por fazer e procurando falar o mínimo possível, chegou até o vigia e perguntou: "Cumé qui eu faço prá fichá como cobrador?". Livrando o portão da corrente que impede a passagem dos veículos, o guarda respondeu: "Olha, agora só a uma e meia. Isto se ainda estiverem precisando, pois hoje de manhã uns dez fizeram ficha. Volta aí a uma e meia".

NA FILA DOS DESESPERADOS ...

Mesmo tendo chegado antes da hora marcada, não . conseguiu mais que um 17.0 lugar na fila já existente próxima da cerca. Não demorou muito e ela já havia aumentando em mais alguns dez candidatos. O sol forte da tarde impacientava a todos, e a menor sombra, deixada pelos mourões, era quase de toda aproveitada. Muito falador, um mulato baixinho comentava suas aventuras à cata de emprego: "Malandro - dizia - olha, eu já passei umas poucas e boas com este negócio de ser motorista de ônibus. Teve uma firma em São Paulo que logo no primeiro dia que eu cheguei lá para pedir emprego, já me colocaram do lado de uma mulher que queria trabalhar como cobradora. Levaram a gente para um ônibus. Saímos com um motorista e fizemos uma vez o trajeto para aprender. Na segunda vez já estávamos sozinhos. "Trabalhe quatro dias junto com aquela cobradora e até "transei" algumas vezes com ela. Depois destes quatro dias a empresa mandou os dois embora. Era assim com todo mundo".
Ele não se cansava de falar e uma roda acabou sendo formada ao seu redor. "Depois dessa firma fui trabalhar corno motorista de micro ôníbus. Maió pauleira, meu. Mas o que eu perdi nos quatro dias na outra empresa eu recuperei nesta aí. Roubava pacas o patrão. O ônibus não tinha borboleta e quem cobrava era eu mesmo. Fiquei só uma sem na, mas o que eu malhei valeu por um mês. Aí eu me mandei. Agora quero ver se eu entro aqui. Dizem que não é difícil". A falação do mulatinho acabou fazendo o tempo passar mais depressa. Ó sol já estava bem mais forte e alguns atravessaram a rua para aproveitar a sombra da árvore.
Atrás do repórter alguém perguntou: "Será que nóis fichamos hoje? Eu não tô aguentando mais este sol na minha cabeça". O repórter preferiu não falar nada. Por volta das três horas da tarde, o vigia chegou próximo do pessoal e quase gritando disse: "Olha, pessoal, hoje não vão fichar mais ninguém. Quem quiser voltar segunda-feira pode, mas não é nada garantido". Algumas reclamações fizeram o guarda frisar: "Eu não posso fazer nada. Eu recebo ordens lá de dentro. Eu só cumpro o que me mandam fazer. Quem quiser voltar segunda, pode voltar, pois hoje não tem mais ficha". Desanimados, todos deixaram o local, mas muitos ainda continuaram reclamando.

A FILA, SEMPRE EXTENSA...

Depois de um fim de semana prolongado pelo 10 feriado do dia 2 (Finados), a segunda-feira seguinte transformou-se num dia. muito mais que normalmente, propício à busca de empregos. Não eram oito horas ainda, faltava bem uns vinte minutos e, no entanto, onze pessoas já estavam na fila. Desta vez o repórter conseguira uma posição pouco melhor, mas era quase certo que não conseguiria chegar até a ficha novamente. Existe uma norma que faz entrar sempre os dez primeiros da fila. Os que sobram, aguardam qualquer problema com um destes dez, voltam no período da tarde ou no dia seguinte. Como na vez anterior alguns falavam muito mais que os outros. Nessa ocasião foi um rapaz, trajes simples mas muito asseado. Ele contava as experiência que tivera como vigia de uma firma no Paraná - Estado que parece ser o maior fornecedor de mão de obra como cobrador e motorista para a CCT.

"Eu não quero mais saber de ser vigia, nem mesmo sabendo que eles estão precisando aí. O guarda já falou que seu eu quiser fazer ficha para vigia eu entro hoje mesmo, mas eu não quero não. Lá no Paraná eu trabalhei de vigia dois anos e se como é de responsabilidade. Já imaginou se alguém entra aí e rouba tudo e a gente nem vê? Tá danado sô! Eu quero ver se pego mesmo de motorista. Vigia num quero nem saber. Eu pedi de missão na firma lá do Paraná porque um amigo meu ficou amarrado quase a noite toda e só num mataram ele por pouco. Quando eu soube num quis mais saber". Os outros ouviam atentos. De repente, o vigia da CCTe fala ao pessoal: "Os dez
primeiros podem entrar. Os outros se quiserem esperar podem, senão podem voltar a tarde. Muita gente insistiu com o guarda ele disse a mesma coisa outra vez: "Eu só recebo ordens. Não mando do nada ... "

"ENFIM, A FICHA..."

Foi só depois de vários dias, enfrentando a "fila dos desesperados" e resolvendo chegar lá antes mesmo do sol nascer que o repórter conseguiu enfim chegar até a ficha. Ele era o .segundo da fila e novamente só entraram dez, entre eles apenas uma mulher. Logo ao passar pelo portão ela recebeu o primeiro gracejo: "É, parece que voce vai dar uma bela cobradora", disse o guarda, completando depois; "Acho até que eu vou ser seu motorista". Ela nada disse, mas devolveu um sorriso. Caminharam todos até a sala de testes. Uma pequena divisão do departamento pessoal servida de 12 cadeiras encostadas às paredes e uma mesinha ao centro. Sentado à mesas Paulo, o "aplicador" de testes.

Grosseiramente e com sotaque de nortista mandou que todos fossem sentando. Instantes depois ordenou com ar de superioridade: "Todo mundo com carteira profissional e certificado de reservista na mão". Para um senhor que lhe apresentou a carteira e o título ao invés do certificado disse: "Cê é burro sô, eu disse certificado de reservista e isto é título de eleitor". A um outro que lhe entregou a êarteíra cheia de documentos, quase gritou: "Eu falei só a carteira e o certifica do, não este montão de papel. Tira isto tudo daí". Entregou a todos a ficha de testes. Uma pequena folha de papel com o timbre da-CCTC, onde deveriam ser colocados alguns dados pessoais e realizadas as três contas que compõem o teste: uma de somar com três parcelas, uma de subtrair e uma de multiplicar. A dificuldade de muitos era visível em realizar as operações e um fato curioso pôde ser observado. Um senhor, sentado ao lado do réporter,
escrevia totalmente fora das linhas e, ainda assim, antes de escrever cada palavra, levava a ficha bem próxima dos olhos. O outro sentado ao lado dele, percebendo o drama, perguntou:

"O senhor não usa óculos?". "Eu preciso usar mas não tenho dinheiro para comprar" respondeu ele. O que perguntara levou a mão ao rosto, tirou o óculos que usava e estendeu ao companheiro. Este, ao colocá-lo, sorriu e exclamou entusiasmado: "Puxa, como melhorou". Eles ficaram até o fim do teste trocando o óculos um com o outro.

DEPOIS DAS CONTAS, OUTRA FICHA ..

Terminadas as três operações, a folha era entregue ao rapaz que ficava sentado ao centro da sala, sempre desviando seu olhar para à futura cobradora. Houve até um momento em que ele lhe perguntou: "Qualquer dificuldade pode me perguntar viu? Você é casadal". A outra ficha era propriamente a de solicitação de emprego. Dados pessoais completos, e cartínha pedindo emprego, números de documentos, nomes de pessoas conhecidas em Campinas, etc. O repórter entregou esta ficha com alguns espaços em branco. O rapaz exigiu que ele escrevesse "sim" e "não" nestes espaços. Ao final, recebeu a ficha, olhou para ´o repórter e disse: "Você precisa cortar o cabelo. Vai cortar aqui ou na cidade?", "Na cidade", foi: a resposta, "Você sabe quais são os documentos que precisa tirar xerox?" Depois da negativa disse: "Então passe ali no despachante em frente ao ponto de ônibus que ele lhe diz. Traga tudo amanhã. Venha com o cabelo cortado".

Nada mais restava fazer senão ir ao despachante, instalado na sala de visita de uma casa ainda em construção. Pendurada no portão uma placa: "Escritório Gedê _ Guias para identidades, atestados e outros.
Lá, o rapaz que atende foi dizendo logo: "É do cumento para a CCTC?" Pegou um carimbo e o estampou num pequeno pedaço de papel. Todos os documentos que precisavam de xerox e os que ainda deveriam ser feitos estavam ali relacionados. "As xerox ficam em 30 cruzeiros" (apenas 4 documentos) o atestado de antecedentes nós tiramos na hora, fica em 100 cruzeiros, a carteira de saúde também fica em 50 cruzeiros. Faço tudo por 180 cruzeiros". Como a carteira de saúde o repórter já possuía, pediu só o atestado de antecedentes. Este não é feito na hora coisa nenhuma ... Um recado é passado ao DP da CCTC dizendo que "o. atestado do sr. Gilberto Gonçalves está sendo providenciado. Quando estiver pronto envio ao DP". Uma assinatura ilegível "válida" o documento. Estava agora tudo pronto para o devido registro. Antes porém o repórter passou mais uma vez pelas mãos do "nordestino" Paulo, para verificar Sé os documentos estavam mesmo em ordem e se o cabelo havia sido de fato cortado. "Tudo bem, pode ir no balcão para registrar", disse

 


Outras fotos :


Foto publicada na página 25 da edição


Fotos não publicadas as seis primeiras tentando documentação; na redação com Odair Alonso e Moretti Bueno; publicadas contando dinheiro e saindo do escritório com documentos novos; 10 e 11 (gozação) não publicadas; duas últimas publicadas.

 
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